8. ARTES E ESPETCULOS 29.5.13

1. MSICA  A VOZ DOS GIGANTES
2. LIVROS  MEMRIAS DA GRANDE DOR
3. LIVROS  COM A PALAVRA, O SOLDADO RASO
4. LIVROS  INUSITADA ATRAO
5. TELEVISO  FLORES DO MAL
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. J.R. GUZZO  ZERO MAIS ZERO

1. MSICA  A VOZ DOS GIGANTES
Neste ano, celebra-se o bicentenrio do alemo Richard Wagner e do italiano Giuseppe Verdi, os pilares do repertrio de todas as grandes casas de pera.
NELSON ASCHER

Qualquer manual que apresente as cinquenta ou 100 peras obrigatrias para iniciantes e interessados arrolar uma ou duas por compositor. Em dois casos, porm, a lista chegar a dois dgitos: o alemo Richard Wagner e o italiano Giuseppe Verdi, tambm onipresentes na programao de casas de pera planeta afora. Os dois maiores nomes da pera nasceram h dois sculos, em 1813  o bicentenrio de Wagner foi lembrado na semana passada; o de Verdi ser em outubro.  Contemporneos mutuamente complementares, mas tambm herdeiros e transformadores de tradies, distintas e divergentes, eles eram vistos como rivais, embora, com o tempo, sua arte comeasse a convergir. Nem Verdi nasceu oficialmente italiano nem Wagner alemo, pois tanto a Alemanha quanto a Itlia so pases que, atravs da unificao, se formaram na segunda metade do sculo XIX, quando ambos os msicos trabalhavam em suas composies maduras.  Em vida, mais que meros artistas, eles se tornariam representantes ou smbolos de suas respectivas naes  Verdi, por causa da imensa popularidade de sua obra: Wagner, porque seu projeto requeria a elaborao de uma espcie de mitologia nacional epicamente apresentada. Pragmatismo e maturidade garantiram que o envolvimento do italiano com a poltica no ultrapassasse os limites da sanidade. Mas a personalidade neurtica e paranoica de Wagner o levaria a adotar posies detestveis, o antissemitismo e um dio antifrancs entre elas.  Pequenas enfermidades polticas do sculo XIX converteram-se em grandes patologias no seguinte, e   luz destas que o compositor tem sido julgado.   justo execr-lo por coisas que disse, mas  bem mais difcil identifica-las na sua msica, por mais que seus opositores e seus piores partidrios  os nazistas que postumamente o adotaram como precursor  se julgassem aptos a faz-lo. Como msicos, porm, eles eram indiscutivelmente, alemo um, italiano o outro.  Para Verdi, a pera era a forma mais bvia e normal de fazer msica. Para Wagner, ocupar-se do drama cantado em vez de se dedicar a composies instrumentais ou, no limite, a canes de arte (Lieder) era aberrante e no muito respeitvel. Afinal, a italiana era a principal das duas grandes tradies opersticas vigentes (a outra era a francesa). Mesmo um austraco como Mozart ou um alemo radicado em Londres como Handel usavam na maioria de suas peras libretti (o texto) em italiano. A pera, als, era uma forma de arte to nova quanto o romance e, criada na virada do sculo XVI, na Itlia, atingira recentemente um perodo de apogeu devido a Rossini, Bellini e Donizetti, trs italianos.
     Foi graas a uma capacidade sobre-humana de trabalho e  sua inesgotvel inventividade meldica que Verdi se mostrou apto a superar a educao musical limitada que suas origens humildes lhe haviam imposto. Wagner, por seu turno, tivera acesso a uma formao, no s musical, mas literria e filosfica, bem mais exigente e completa. A essa boa educao e  vitalidade do romantismo alemo se pode atribuir, em parte, o aspecto mais original de toda a sua carreira: o fato de ele ter escrito todos os seus libretti. Desde que essa forma de arte surgiu, os compositores ou faziam msica para um texto j pronto ou, mais raramente, trabalhavam com um libretista. Consequncia infeliz disso  que o texto e amide a prpria ao se encontram qualitativamente muito abaixo da msica. Todo apreciador de pera est acostumado a tolerar letras desajeitadas e retorcidas como a de nosso Hino Nacional e a desculpar tramas absurdas. No obstante ser uma das peras que, na carreira de Verdi, inauguraram uma sequncia ininterrupta e gloriosa de obras-primas, O Trovador, baseado no drama romntico do espanhol Antonio Garca Gutirrez, traz um enredo que acaba se mostrando incompreensvel  sem que isso, no entanto, comprometa o efeito total, assegurado pela dramaticidade precisa e coerente da msica. 
     No drama musical wagneriano, pelo contrrio, a qualidade literria combina-se com a musical, em uma sntese superior que, segundo o compositor, configuraria o que ele chamou de a "obra de arte do futuro"  algo que, nas pretenses do autor, eclipsaria as peras mais tradicionais, inclusive as do italiano. Se Verdi compunha dramas cujos personagens, em vez de falar, cantavam, Wagner  como se pode ver em especial na sua criao mxima, as quatro peras que formam a tetralogia O Anel do Nibelungo, a mais ambiciosa arquitetura musical da histria, com catorze ou quinze horas de durao  compunha verdadeiras sinfonias nas quais os cantores no passavam de instrumentos musicais. Seus personagens, a rigor, no faziam msica. Eles eram msica. 
     Mas a arte, como tudo de humano, no se reduz a equaes simples: seu futuro nunca  previsvel, e nem seu passado, por mais conhecido,  fcil de entender ou explicar. Da que a msica visionria, refinadamente teorizada e meticulosamente composta de Wagner no tenha tornado irrelevante a de Verdi, que punha seus instintos a servio de um pblico que (quase) sempre tinha razo e precisava ser satisfeito. De Rigoletto a Falstaff, de La Traviata a Aida, o italiano domou grandes massas orquestrais, combinando-as, em graus crescentes de sutileza inesperada, com a voz humana em rias, duetos, trios e  sua marca registrada  coros, tudo isso de maneira cada vez mais inconstil e sublime. 
     Retrospectivamente, constata-se que os dois compositores formam um desses pares inevitveis e indissolveis nos quais o sculo XIX foi prdigo: Ibsen e Strindberg, Balzac e Flaubert, Tolstoi e Dostoievski. Enquanto o ser humano preservar a estranha capacidade de extrair prazer incalculvel da justaposio consciente de sons, tanto Wagner quanto Verdi continuaro sinnimos do mais alto grau possvel de realizao musical.


2. LIVROS  MEMRIAS DA GRANDE DOR
Sem o mnimo trao pacifista, Tempestades de Ao, do alemo Ernst Jnger, revela o horror da I Guerra Mundial pela voz de um combatente que se sente em casa nas trincheiras.

     Com pelo menos 10 milhes de mortos e, entre feridos, mutilados ou desaparecidos, mais de trs vezes esse nmero, a guerra de 1914-1918 devastou a faixa etria mais produtiva e promissora do continente europeu numa era em que este ainda era, inclusive demograficamente, o centro do mundo. A I Guerra Mundial, que atingiu todas as classes sociais sem dar aos combatentes sequer a oportunidade tradicional de ver pessoalmente o inimigo (cerca de dois teros das baixas se deveram  artilharia e s metralhadoras pesadas), mudou profundamente a viso de mundo do homem moderno. Os principais agentes dessa mudana foram escritores, poetas, jornalistas, artistas plsticos, dramaturgos que participaram em alguma medida da ao. Uma dcada aps o fim das hostilidades, autores de todos os pases envolvidos j haviam publicado relatos, dirios, memrias, polmicas e romances. Um dos primeiros e talvez o melhor de todos foi uma narrativa a um tempo pessoal e friamente objetiva, Tempestades de Ao (traduo de Marcelo Backes; CosacNaify; 352 pginas; 59 reais), escrita por um jovem oficial alemo, Ernst Jnger, que se alistara, entusistico, to logo eclodira a guerra. Publicado em 1920, o livro passou por revises substanciais at chegar, bem depois da conflagrao seguinte,  sua forma final. 
     No se trata de uma meditao sobre a guerra e seus horrores ou, como  o caso do famoso Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, de uma obra de fico programtica, destinada a pregar a paz e louvar a normalidade e o convvio. Resultado de dirios seguidamente revistos e retrabalhados pelo autor, Tempestades de Ao  mais seco e factual, alm de menos meditativo ou potico. Sob fogo inimigo nas trincheiras, o narrador se sente em seu elemento natural, como um guerreiro de outras eras: "Ao avanar, uma fria ancestral tomou conta de ns. (...) A vontade monstruosa de aniquilar que pesava sobre o campo de batalha adensava-se nos crebros e os mergulhava em uma neblina vermelha". No foi  toa que, com a esquerda se apropriando das boas intenes pacficas, o livro e seu autor fossem vistos como direitistas. E Jnger serviu como oficial tambm na II Guerra, se bem que levando uma vida pacata na Paris ocupada. Entre ele e o nazismo, as relaes foram frias ou indiferentes de lado a lado  mas Jnger aprovava o belicismo e o nacionalismo do movimento. 
     Mesmo com esses fatores pesando contra si, Tempestades de Ao foi reconhecido por gente sria de todo e qualquer campo ideolgico, provavelmente porque um testemunho to lcido quanto isento de sentimentalismo e demagogia, oriundo do olho do ciclone, sempre foi e ser o mais raro dos fenmenos. Na raiz desse testemunho, mais que a mente, est a carne do autor, que conta das vinte cicatrizes que a guerra lhe deixou. Jnger morreu em 1998, aos 102 anos. O que viu na primeira juventude, ele viu para sempre e para todos ns  por exemplo, ao dar entrada no hospital aps ser ferido pela primeira vez: "Uma figura nua at a cintura, de costas abertas por um ferimento, apoiava-se  parede. Outro, com um naco triangular de crebro pendurado no crnio, no parava de berrar de forma estridente e tocante. Ali imperava a grande dor, e pela primeira vez eu vislumbrava as profundezas de seu reino atravs de uma fresta demonaca". 
NELSON ASCHER


3. LIVROS  COM A PALAVRA, O SOLDADO RASO
Intrigado com os silncios do pai ex-pracinha, o baterista Joo Barone foi fundo na misso de estudar a II Guerra. Em 1942, ele enfim d voz aos combatentes brasileiros.
AUGUSTO NUNES

     Mesmo antigos seguidores dos Paralamas do Sucesso reagem com espanto  descoberta de que o baterista Joo Barone  um especialista em II Guerra Mundial, j escreveu um livro sobre o tema e acaba de publicar outro, agora tratando exclusivamente da Fora Expedicionria Brasileira. Como  possvel encontrar espao na agitada agenda de roqueiro para pesquisas sobre o maior dos conflitos registrados desde o Dia da Criao? A leitura de 1942  O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida (Nova Fronteira; 304 pginas; 39,90 reais) ordena que a pergunta seja invertida: como  que Barone consegue atender aos compromissos da banda se aparentemente consome 24 horas por dia no resgate de acontecimentos ocorridos h setenta anos? 
     Filho de um dos 25.000 combatentes da FEB, o Barone historiador comeou a tomar forma embalado no pelo que ouviu do pai, mas pelo que Joo de Lavor Reis e Silva, um introvertido de nascena, deixou de contar. Ele se tomava mais retrado ainda quando a conversa enveredava pela experincia vivida entre setembro de 1944 e maio de 1945, perodo em que participou da ofensiva militar aliada que libertou o norte da Itlia, consumou a derrocada dos alemes numa regio de alta relevncia estratgica e apressou o fim da guerra em territrio europeu. Os filhos ansiavam por atos heroicos. Nas raras ocasies em que se disps a falar sobre o assunto, o pracinha de poucas palavras interrompeu o relato no meio ou substituiu revelaes por reticncias. 
     Barone primeiro recorreu  imaginao para reconstituir as aventuras encobertas pelo silncio. Depois de herdar o capacete de expedicionrio, saiu  caa de testemunhas, documentos e imagens que lhe permitissem ao menos vislumbrar o que o pai viu de perto. Incurses pelos cenrios do drama completaram o curso intensivo que fez de Barone um diplomado em II Guerra, com doutorado em FEB. O destino impediu que o soldado raso do Regimento Sampaio descobrisse que o filho hoje sabe muito mais do que ele sobre a guerra a que sobreviveu. O velho pracinha gostaria de ouvir a assombrosa histria do soldado Dlvaro Jos de Oliveira, que resistiu num nico dia a dois naufrgios provocados por torpedos alemes. Ou o caso do catarinense que encontrou um conterrneo de ascendncia germnica no grupo de prisioneiros e trocou um caloroso abrao com o agora inimigo. 
     Quantas mulheres se engajaram na FEB? Quem foi o primeiro a tombar em combate, por que a metralhadora inimiga foi apelidada de "Lurdinha", quantos bombardeios somaram os aviadores brasileiros? Barone sabe tudo isso. E muito mais. Conjugadas a depoimentos e revelaes surpreendentes, as informaes contidas no livro resultam numa narrativa sem parentesco com a histria oficial. Vista pelas lunetas dos chefes civis e militares, a saga da FEB parece o Brasil Maravilha dos discursos de Lula: se melhorar, estraga. Comandadas por generais que no fariam feio num confronto com Napoleo Bonaparte, as tropas brasileiras, protegidas pelos pilotos do Senta a Pua!, colecionaram vitrias to espetaculares que nem vale a pena registrar um ou outro revs. 
     Essa verso edulcorada tem sido retificada por obras que tratam a verdade com o devido respeito.  o caso do essencial As Duas Faces da Glria, do jornalista William Waack. E  o caso de 1942. O entusiasmo de pracinha honorrio em nenhum momento deforma o olhar de Barone.  o olhar do pai. Vista pelo filho de Joo de Lavor Reis e Silva  ou apenas Joo da Silva, protagonista do episdio fictcio que abre o livro , foi bonita a histria da FEB. Mas bonita de outro jeito. "As lies da participao brasileira vo muito alm da velha necessidade de reafirmar a bravura e o herosmo dos pracinhas no campo de batalha", escreveu Barone. "Naquela poca, foi to difcil constituir uma fora militar para tomar parte na guerra quanto  difcil nos dias de hoje preparar o pas para sediar uma Copa do Mundo, uma Olimpada ou para prevenir as enchentes de vero (vale lembrar que o total de 916 mortes e 345 desaparecimentos com as chuvas de 2011 no Rio por pouco no superou os cerca de 1500 brasileiros mortos na II Guerra Mundial)." Refletir sobre o que houve entre 1942 e 1945, insiste Barone, poderia ajudar a desfazer a sensao de que o pas nunca aprende com os erros do passado. No foram poucos os erros que pontuaram a saga da FEB  e que testaram a determinao de milhares de Joes da Silva na frente domstica nos dois anos que precederam a partida para a Itlia. 
     Criada oficialmente em 1943, a FEB teve de enfrentar as incertezas geradas pelos movimentos pendulares do governo de Getlio Vargas, que oscilou entre as partes em guerra antes de definir-se pelos aliados. As tropas tiveram tambm de vencer intrigas polticas, uma estrutura militar envelhecida e, sobretudo, carncias inverossmeis. No treinamento no Brasil, faltaram armas para combates simulados. (Para que se aprendesse a lidar com explosivos, latas de goiabada fizeram as vezes de minas terrestres.) E continuaram faltando armas s tropas j acampadas na frente europeia. O comando americano teve de socorrer os brasileiros com trajes de frio, barracas de campanha, alimentos e outros suprimentos bsicos. 
     A FEB j tinha um hino meses antes de existir fisicamente. Como os pilotos do Senta a Pua! descobriram s s vsperas de uma parada militar que faltava um hino  Aeronutica, resolveram desfilar ao som da marchinha carnavalesca Jardineira. Esses monumentos ao jeitinho brasileiro comprovam que os nativos destes trfegos trpicos recorrem a improvisos espertos at no meio de uma guerra. Nem sempre d certo, ensinam os dramticos episdios que Barone narra com a leveza que identifica os autores vacinados contra a linguagem pedante dos acadmicos demais. O msico historiador falou pelo pai. O Brasil enfim pode ouvir como foi a guerra quase desconhecida pela voz de um Joo da Silva. 


4. LIVROS  INUSITADA ATRAO
De volta s livrarias quarenta anos depois de seu lanamento, a biografia de Marilyn Monroe escrita por Norman Mailer promove um curioso encontro: o do mito de Hollywood com um cone da intelligentsia americana.
MRIO MENDES

     Ao ser publicado, em 1973, Marilyn, de Norman Mailer (traduo de Alessandra Bonrruquer; Record; 352 pginas; 39,90 reais), foi um verdadeiro acontecimento no mundo das letras e do showbiz. Afinal, ali estava um dos mais festejados intelectuais americanos  autor de pelo menos um clssico, Os Nus e os MoRTos, famoso pelo ativismo poltico e pelos celebres escritos de no fico que contriburam para estabelecer a reputao do new journalism  lambuzando-se na geleia pop ao biografar o supremo smbolo sexual do sculo XX, morto havia apenas onze anos. Era como se a intelligentsia finalmente tivesse sucumbido ao charme e ao veneno da loira estonteante (porm no exatamente talentosa nem culturalmente relevante) a ponto de enaltec-la em prosa de alta estirpe. Em seu tpico estilo pugilstico  ele tambm carregava a fama de mulherengo, invocado e brigo , Mailer (1923- 2007) entrega logo de incio o que o levou a fazer uma anlise menos frvola e mais cerebral da atriz: "H milhes de mulheres estpidas, confusas e com sorte, e nenhuma chega perto de Monroe". Fora de circulao havia pelo menos duas dcadas, o livro no possui mais o impacto original do improvvel encontro entre o figuro erudito e a vedete de passatempos ligeiros. Mas o tempo se encarregou de transform-lo na viso de um grande escritor sobre o maior de todos os mitos cinematogrficos. 
     Classificado pelo prprio autor como um romance biogrfico  h dramatizaes de acontecimentos, verses sugeridas para episdios nebulosos ou nunca solucionados e, principalmente, algumas teorias psicolgicas para justificar o temperamento e as atitudes da personagem , Marilyn  singular na extensa bibliografia que se produziu sobre a estrela de cinema desde aquela triste madrugada de 5 de agosto de 1962, quando ela, aos 36 anos, ingeriu uma dose fatal de barbitricos. Tambm est a anos-luz de distncia da biografia hollywoodiana padro, recheada com apetitosos mexericos e indiscries, j que o principal interesse de Mailer era situar Marilyn no s na mitologia americana das celebridades, mas tambm dissec-la como a bela efgie dos desastres espirituais dos anos 60. Segundo ele, a dcada comeara com o suicdio do grande mestre Ernest Hemingway, fora pontuada pelo assassinato dos irmos John e Bob Kennedy e do lder dos direitos civis Martin Luther King, e acabara "com Andy Warhol como seu regente".
     Apesar do incio potico  "o acar do sexo emanava dela como a ressonncia do som da alma de um violino" , Mailer se revela em sua melhor forma quando  cnico e agressivo. Ele emprega nuances psicanalticas para descrever os lares adotivos nos quais a menina Norma Jean cresceu  filha de me esquizofrnica e pai desconhecido , utiliza a ginga malandra para falar dos tipos que a ajudaram a se tornar uma modelo popular (e ento tentaram se aproveitar dela) e no poupa os figures com quem ela se envolveu em maior ou menor grau quando alcanou o sucesso  seja o produtor Darryl Zanuck, o professor de arte dramtica Lee Strasberg ou o terceiro marido, o escritor Arthur Miller, um rival intelectual  altura do prprio Mailer. No entanto,  o astro do beisebol Joe DiMaggio, com quem Marilyn foi casada por apenas nove meses, em 1954, que surge como a grande figura trgica e romntica: um homem devotado ao amor que desde o princpio, quando ele se apaixonou por uma foto dela em 1951, sabia ser impossvel de realizar por completo. 
     A Marilyn vista por Mailer no  o lugar-comum, aquele misto de seduo sexual explosiva, rf faminta de amor e eterna vtima do sistema. Ele a mostra, desde a infncia, como algum que no poderia caber naquela existncia modesta do subrbio de Los Angeles. Marilyn se casou pela primeira vez aos 16 anos, para fugir da rotina dos lares adotivos. Quatro anos depois j estava divorciada, posando para fotos e almejando Hollywood. Para Mailer, a explicao do inextinguvel magnetismo sexual da estrela foi fornecida involuntariamente por ela mesma em um de seus primeiros filmes, a comdia Loucos de Amor, de 1949. Numa cena, depois de deixar o sempre assanhado Groucho Marx boquiaberto com seu rebolado, a personagem interpretada por Marilyn declara, meio marota, meio surpresa: "Homens me seguem o tempo todo". Simples assim. 
     Ao contrrio da opinio generalizada da crtica, que costuma ver em Marilyn o pice de um artista de gnio intuitivo porm irregular, oscilando entre o sublime e o pattico, Mailer afirma que ela era, sim, uma grande atriz, apesar de americana demais para ser uma boa Grushenka, a personagem do romance Os Irmos Karamazov que ela tanto quis mas no conseguiu fazer no cinema. Ele tambm arrisca dizer que ela seria arrasadora em Bonequinha de Luxo, no lugar de Audrey Hepburn, e teria seu triunfo em Depois da Queda, a pea que Arthur Miller escreveu inspirado nela. 
     O que mantm o livro refm do tempo em que foi escrito so as raivosas e constantes referncias  Guerra do Vietn e ao ento presidente Richard Nixon. Mas  interessante notar que Mailer foi o primeiro autor de peso a considerar a hiptese da ligao da morte de Marilyn com as investigaes que o FBI e a CIA estariam clandestinamente conduzindo sobre os irmos Kennedy  com quem ela havia tido casos no muito secretos. Porm, mesmo do alto de suas convices polticas e de sua capacidade para radiografar a alma humana, Mailer se reconhece incapaz de solucionar totalmente o enigma MM: "Marilyn partiu. Escapou de ns sobre o horizonte do ltimo comprimido". E assim deve permanecer.


5. TELEVISO  FLORES DO MAL
Amor  Vida resgata um tipo raro, mas de valor comprovado, nas sries e novelas: o vilo gay enrustido. E desafia  ainda bem  a patrulha politicamente correta.
MARCELO MARTHE

     Ao bolar Amor  Vida, seu primeiro folhetim das 9, o noveleiro Walcyr Carrasco pretendia investir no tradicional embate entre mocinha e vil. Mas o projeto esbarrou na luta encarniada dos autores da Globo pelas estrelas da casa: suas preferidas, Flvia Alessandra e Claudia Raia, j haviam sido abocanhadas por Gloria Perez para a fracassada Salve Jorge. Carrasco buscou ento outra sada: quem no tem co caa com gato  ou, no caso de Amor  Vida, com um bichano sdico. O autor dispensou a clssica antagonista de saias em prol de Flix, gay enrustido vivido pelo ator Mateus Solano. "Tive, sabe, aquela emoo de deparar com uma ideia nova. J conheci muitos gays venenosos, e o humor deles  fascinante, com ironia e certa crueldade", afirma Carrasco. 
     Playboy almofadinha, sempre de mocassins sem meias e blusinha de cashmere, Flix  casado e tem um filho  mas deixa entrever seu "'eu verdadeiro" nas tiradas e trejeitos. Por inveja da irm, a herona Paloma (Paolla Oliveira), ele de cara cometeu um daqueles atos abominveis que costumam ser atribuio das malvadas: jogou numa caamba de lixo a filha da irm com um hippie vagabundo  horrorizando-se por Paloma ter dado  luz no banheiro de um bar "fuleiro". "At sinto simpatia por voc, ratinha. Vir ao mundo j enrolada numa echarpe chiqurrima  glorioso", disse  recm-nascida que, para efeito de transporte, envolvera no adereo da me desfalecida. Flix no contm a lngua nos momentos inconvenientes. "Eu conheo gente que perde carteira, bolsa  mas um beb? Voc se superou", disse  chorosa Paloma. Ele no perdoa nem a me, que o adora, a mdica perua interpretada por uma doutora honoris causa na especialidade, Susana Vieira: "Mame no clinica faz sculos. Acho que entende mais de clios postios que de medicina". T, meu bem? 
     Flix, enfim,  o achado que fez valer a primeira semana de Amor  Vida, muito embora no se trate de um tipo indito: homossexuais enrustidos sempre tiveram espao no rol dos viles da TV. O que ocorre  que eles foram se tornando mais abusados  e o personagem de Mateus Solano avana mais um tanto nessa direo (veja exemplos abaixo). Em Perdidos no Espao, comportado seriado da dcada de 60, a sexualidade do mesquinho mas parvo Doutor Smith era apenas uma suspeita. Na novela Roda de Fogo, exibida nos anos 80, o advogado malfico vivido por Cecil Thir era massageado sofregamente por seu mordomo. Ficava s subentendido, contudo, que era gay. "Sua sede de poder era um reflexo da vida sexual mal resolvida", diz o especialista em novelas Mauro Alencar. Flix d mais pinta. Pego pela mulher com um affair, ele confessou sentir atrao por homens  e jurou que mudaria. "Eu entro no armrio de novo e tranco a porta. Boto cadeado", disse. 
     O enrustimento parece ser precondio para um homossexual ocupar o posto de antagonista. A prpria novela ilustra o outro lado da moeda: os gays bem resolvidos tendem a ser retratados como figuras boazinhas  vide o casal representado por Marcello Antony e Thiago Fragoso, que deve entrar em cena dentro de alguns captulos. O autor v certa conexo entre a obsesso em se esconder no armrio e o pendor para a maldade. "A represso cria sequelas, cria amargura", diz Carrasco. Mateus Solano saca de outra explicao: "A gente conhece muita bicha m movida pela no aceitao da sociedade". Devagar, Solano:  opo de cada um manter-se enrustido ou no, assim como ser bom ou ruim. Para encarnar Flix, o ator jura que no buscou inspirao em seus pares: "Ns, artistas, vivemos num meio permissivo. Um empresrio engravatado tem mais dificuldade em lidar com as questes humanas". 
     Sejam do bem ou do mal, o certo  que tipos assim existem. "Conheci gays enrustidos e j li que muitos clientes de garotos de programa so casados", diz Carrasco. Recentemente, o autor revelou em entrevista  PLAYBOY ser bissexual. "Acho que todo mundo ", declarou. Com o vilo gay, ele quer desafiar a patrulha politicamente correta. "H uma vigilncia sobre temas e personagens que servem para levantar bandeiras. Mas no temo as reaes", afirma. Em vez de abraar bandeiras, melhor se render ao bandeiroso Flix. 

ABRE-TE, ARMRIO
Como os gays malvados da TV foram se tornando menos enrustidos  ainda que esse comportamento mais soltinho s seja flagrado pelos espectadores.

Felix (Mateus Solano)  O vilo da novela Amor  Vida mal se contm no armrio: ele usa grias do "babado", flerta com bonites e desdenha do mulherio. Logo no terceiro captulo, foi pego pela mulher cora um namoradinho bombado.

Thomas (Rob James-Collier)  O lacaio ambicioso da srie inglesa Downton Abbey no alardeia sua sexualidade  afinal, vive na Inglaterra das primeiras dcadas do sculo XX. Ele no liga, porm, para o fato de o acharem diferente, e at busca tirar proveito disso na alcova.

Tyler (Ashton Holmes)  O escroque de Revenge atuava como prostituto sem restries de gnero. Mas na total discrio, claro: ele acaba chantageado por outro personagem gay, que o arrasta para a cama e filma tudo.

Mrio Liberato (Cecil Thir) - O vilo da novela Roda de Fogo, exibida na dcada de 80, tinha chiliques efeminados e era massageado de forma sugestiva por seu mordomo. Nunca se disse com todas as letras, contudo, que o solteiro era gay.

Doutor Smith (Jonathan Harris)  Os traos homossexuais do astronauta inescrupuloso e aparvalhado da srie Perdidos no Espao, produzida nos Estados Unidos nos anos 1960, eram muito sutis. A afetadssima dublagem nacional tratava de denunci-lo.


6. VEJA RECOMENDA
CINEMA
A DATILGRAFA (POPULAIRE, FRANA, 2012. J EM CARTAZ NO PAS)
 Nenhum passado  mais estranho do que o passado recente  uma mxima que a comdia romntica do diretor francs Rgis Roinsard ilustra com clareza e tambm leveza.  1958, e Rose Pamphyle (Dborah Franois, uma espcie de verso mais robusta  o que no seria difcil  de Audrey Hepburn), filha de um merceeiro de uma cidadezinha sonolenta da Normandia, decide realizar o sonho de toda jovem arrojada de ento e virar secretria. Desorganizada e avoada, no  bem a candidata dos sonhos do srio e aprumado Louis chard (Romain Duris), dono de uma pequena seguradora. Mas fica com o emprego porque  uma extraordinria catadora de milho: bate  mquina s com dois dedos, porm em velocidade espantosa. Louis divisa ento um futuro brilhante: vai treinar Rose sem descanso, at torn-la vitoriosa no grande concurso mundial de datilografia (!). A ideia de que multides se aglomerariam em teatros para torcer por moas de saia rodada datilografando furiosamente soa bizantina, mas o diretor estreante tira timo partido dessa premissa  assim como de seu cativante par central, cujos rodeios amorosos citam os protagonizados por Cary Grant e pela prpria Audrey em Charada.

LIVROS
A GRANDE DEGENERAO, DE NIALL FERGUSON (TRADUO DE JANANA MARCOANTONIO; PLANETA; 128 PAGINAS; 24,90 REAIS)
 Em Civilizao, Niall Ferguson explicou como, a partir do sculo XVI, o Ocidente conseguiu se arrancar da irrelevncia e do atraso para se tornar o centro de fora cultural e econmica do planeta, concentrando, no incio do sculo XX, mais de 70% do PIB mundial. A Grande Degenerao, como se evidencia j no ttulo, dedica-se a analisar o ocaso desse fenmeno: um Ocidente assolado por crises de "alavancagem" financeira e assombrado pelo crescimento de uma potncia estatizada como a China. Professor de Harvard, Ferguson, um dos mais influentes historiadores contemporneos, mantm seu foco sobretudo nas questes econmicas que so sua especialidade, mas evitando todo o jargo tcnico. Vale-se da noo de "estado estacionrio", do pai da economia liberal clssica, Adam Smith, para dissecar as crises contemporneas da economia americana e europeia. "A dvida pblica  declarada e implcita  tornou-se uma forma de a gerao mais velha viver  custa dos jovens e dos que ainda esto por nascer", alerta Ferguson.

O TANGO DA VELHA GUARDA, DE ARTURO PREZ-REVERTE (TRADUO DE LUS CARLOS CABRAL; RECORD; 392 PGINAS; 39,90 REAIS)
 O espanhol Arturo Prez-Reverte  um mestre de um gnero antiquado: o romance de capa e espada, muito popular aos tempos de Alexandre Dumas, que Prez-Reverte atualizou na srie de livros estrelados pelo capito Alatriste, um aventureiro do sculo XVII encarnado no cinema por Viggo Mortensen em Alatriste. O Tango da Velha Guarda, porm, visita o sculo XX, em trs cenrios e tempos distintos: Buenos Aires, Argentina, no fim dos anos 20; Nice, Frana, em 1937, quando a vizinha Espanha vivia a Guerra Civil; e Sorrento, Itlia, j nos anos 60. Em cada uma dessas etapas, o leitor acompanha a ligao entre Max Costa, um danarino de tango de origem pobre e no muito honesto, e Mecha Inzunza, bela mulher casada com um compositor famoso.  uma tocante histria de amor, cheia da dramaticidade prpria do gnero musical que lhe serve de trilha  o tango. Mas amor e erotismo so temperados pelos lances aventurescos em que Prez-Reverte  mestre. Na Frana, em 1937, por exemplo, desenvolve-se tambm um enredo de espionagem que prenuncia a II Guerra Mundial. 

DVD
BEAUFORT (ISRAEL, 2007. EUROPA)
 Joseph Cedar, de A Fogueira (2004) e Nota de Rodap (2011),  atualmente uma das potncias do cinema israelense: um diretor que combina impressionante erudio com uma notvel percia narrativa  alm de uma viso complicada e angustiada sobre o que significa ser um judeu de Israel hoje. Beaufort, de 2007, s no ano passado foi exibido aqui, em circuito acanhado. Explica-se: essa recriao dos ltimos dias na fortaleza de Beaufort, no Lbano, do derradeiro grupo de soldados encarregados de manter o posto (ocupado por Israel entre 1982 e 2000)  um drama difcil, levado em fogo baixo, em que a inao  um componente poderoso. A retirada de Beaufort j foi anunciada; o Hezbollah libans quer fazer com que ela parea uma fuga, e aumenta o calibre da artilharia despejada sobre a fortaleza. Acostumados  rotina, os soldados agora convivem com o pavor de morrer em qualquer lugar do posto, a qualquer momento. O moral se deteriora, as decises se tornam crticas, e o espectador se sente, como os soldados, cada vez mais sufocado e acuado. O elenco  todo excepcional, mas ainda assim se destaca nele o estupendo Oshri Cohen, que faz o tenente Liraz, de apenas 22 anos, comandante do posto.

DISCO
RANDOM ACCESS MEMORIES, DAFT PUNK (SONY)
 O estouro, em 1996, do hit Da Funk, dos franceses Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo  a dupla Daft Punk , foi fundamental para que a msica eletrnica sasse do gueto das raves. Desde 2005, porm, os dois no apresentavam um novo trabalho (excetuada uma trilha sonora, do filme Tron). Random Access Memories chega, portanto, cercado de expectativa  e no decepciona. Ciente de que seu suingue disco e seus vocais cheios de vocoder  recurso que produz aquele efeito de voz robtica  se tornaram onipresentes nas paradas, a dupla resolveu resgatar as razes de sua sonoridade, em pungentes canes com algo de retr. Isso  temperado com participaes que s enriquecem a receita. A guitarra do veterano Nile Rodgers, do Chie, conduz as funkeadas Give Life Back to Music e Get Lucky  o hit antecipado do disco, com vocal do rapper Pharrell Williams. Em Instam Crush, a voz grave do roqueiro Julian Casablancas, do The Strokes,  convertida num irreconhecvel  adivinhe  robozinho  la Daft Punk. 


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Inferno  Dan Brown. ARQUEIRO
2. A Marca de Atena  Rick Riordan. INTRNSECA 
3 A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA 
4. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA 
5. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
6. Filhos do den  Anjos da Morte  Eduardo Spohr. VERUS 
7. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
8. O Guardio  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
9. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
10.   Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Manifesto do Nada na Terra do Nunca  Lobo. NOVA FRONTEIRA
3. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO 
4. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR 
5. O Livro da Economia  Vrios. GLOBO
6. 15 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO
7. Um Gato de Rua Chamado Bob  James Bowen. NOVO CONCEITO
8. O Castelo de Papel  Mary Del Priore. ROCCO 
9. Na Cozinha com Nigella  Nigella Lawson. BEST SELLER 
10. Carta ao Filho  Betty Milan. RECORD 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
5. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 
6. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
7. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
8. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
9. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA
10. Crianas Francesas No Fazem Manha  Pamela Druckerman. FONTANAR


8. J.R. GUZZO  ZERO MAIS ZERO
     Consta que Galeno, o maior mdico da Roma antiga, chegou certa vez a uma cidade atingida pela peste, onde foi recebido com grandes esperanas pelos notveis locais. Que sorte a nossa, pensaram todos  justo nesta hora, eis que nos aparece o grande Galeno, o homem que mais conhece o corpo humano em todo o imprio e consegue curar as doenas mais infames em circulao por a. Galeno olhou um pouco  sua volta, pensou por um minuto e deu sua receita para o tratamento da peste: "Vo embora daqui o mais rpido que puderem. Vo para o lugar mais longe possvel. Voltem o mais tarde que conseguirem". Houve um certo desapontamento: mas  s isso que o nosso grande doutor tem para dizer? Sim, era s isso, e Galeno foi o primeiro a aplicar a sua prpria terapia: montou no cavalo, saiu a galope e nem olhou para trs. No h informaes mais precisas nessa histria, mas uma coisa  certa: ningum que optou por obedecer  sua prescrio morreu. E no era isso, exatamente, o que esperavam dele?  
     O episdio permanece, no anedotrio da histria, como uma prova de que  perfeitamente possvel aproveitar a prpria ignorncia para obter um benefcio importante  importantssimo, na verdade, para os que salvaram a sua vida seguindo a recomendao recebida. Galeno no tinha a mais remota ideia de como curar a peste, algo que s seria descoberto uns 1600 anos depois, mais ou menos. Mas sabia algumas coisas interessantes. Sabia, por exemplo, que a doena aparecia numas cidades e no em outras, que permaneciam totalmente imunes  epidemia. Por qu? Pergunta intil, raciocinava ele, j que no havia tempo de ficar fazendo pesquisas cientficas quando centenas de pessoas morriam todos os dias nas cidades atingidas pela peste. Sabia, tambm, que um indivduo ainda no contaminado permanecia plenamente saudvel quando se mudava para algum lugar livre da praga. No se importava nem um pouco, enfim, em admitir sua ignorncia no assunto: ao contrrio dos seus colegas, que ficavam receitando remdios absurdos, rezas e mandingas para esconder o fato de que no sabiam nada sobre o tratamento da doena, preferia salvar pela observao lgica aqueles que ainda no estavam condenados. 
     Galeno, na escurido do sculo II, no sabia muita coisa. Era capaz, entre outras proezas, de desmontar um macaco inteiro numa autpsia e, em seguida, colocar cada pea de volta exatamente no lugar em que estava. Mas dizia que isso lhe ensinava muito sobre macacos, e pouco sobre o homem. Achava, por exemplo, que o sangue se originava no fgado, e tinha dvidas sobre a disposio dos msculos no corpo humano; hoje, provavelmente, no o deixariam clinicar num posto de sade do interior do Cear. Mas Galeno era um s em servir-se da sua inteligncia para vencer a sua ignorncia. Ao recusar-se a ficar inventando falsas respostas para questes que desconhecia, e por limitar-se a aplicar ao paciente o que de fato sabia, forava a si prprio a aprender mais, e a aprender com mais certeza. O resultado  que acabou se tornando um farol para a medicina por mais de 1000 anos aps a sua morte. 
     Em muita coisa, no Brasil de hoje, vivemos um momento oposto ao do mundo mental de Galeno  a ignorncia serve para derrotar a inteligncia. Grandes vultos do nosso mundo cultural, poltico, social e outros abarrotam seus sites com cursos, mestrados, ps-graduaes e outros feitos d'armas que atribuem a si prprios; infelizmente, no informam o que aprenderam. Sem isso, o que se tem  zero mais zero. No papel o sujeito  um crnio, e se comporta com aquela arrogncia que s a falta de mrito pode comprar  mas, na hora de mostrar o que realmente sabe, apresenta um diploma em vez de uma resposta. Em outros casos, vai-se na direo oposta: a ignorncia  promovida a virtude, e a falta de estudo vira um certificado de sucesso na vida. Gente desse tipo  convidada a dar aulas ao mundo, aceitar tarefas incompatveis com os seus conhecimentos e at a receber ttulos de doutor honoris causa, aqueles que exigem um chapu estranho que fica sempre torto na cabea do homenageado. Um cidado de mnimo bom-senso, em tal situao, diria: "Muito obrigado, mas no posso aceitar, porque no entendo nada deste assunto. No h causa para a honoris". 
     Mas quem faria isso? O ttulo, os aplausos de plateias tidas como sofisticadas e a canonizao do ignorante valem mais que o mrito. Quanto menos o indivduo sabe, tanto menos quer saber. Por que haveria de querer? No se mexe em ignorncia que est ganhando. 


